quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

desenho de Adriana F. Martinez

Soneto do Desenho de Mulher

Brilho de azul e gotas caídas
Revelam a íris do arco imagem
Lançada precisa no breu sem saídas
Nascida de um fito que dita coragem

Mistério infinito de almas feridas
Errantes no tempo do vento em viagem
Instante que é rubro esquenta miragem
Do corpo fluído de belezas sabidas

Escorre liberta a pura solíta
Expressa em choro eterno e amante
Que pulsa o ventre e a mente levita

Saúde de cores e filo flagrante
Impulsos de vida entregue que agita
O curso contínuo da roda gigante

João Paulo Gusmão P. Duarte (autor do soneto)

HÁ DE VIR O QUE VIRÁ

virá
virará a esquina para te surpreender pelas costas
do teu pescoço pendurada arrebatará o fôlego estrangulará a garganta
virá
gigante e pesada arrastando seus pés e apagando tuas pegadas
virá
com unhas afiadas para fincar em teus ombros
virá
numa virada de lua e na ascendência solar
fincará seus dentes na carne para te marcar
virá
quererás correr
mas ela mais irá te segurar
virá
descompassando os passos a te rastrear
fecunda a se multiplicar
virá
e não terás saída só te apaixonar
pela paixão que veio te buscar.

autora Adriana F. Martinez

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Por falar em língua

as línguas lambem
outras querem lamber
exigem o verbo
pedem...
e algumas línguas imploram...
noutras línguas...
quase imperceptíveis
incompreensível para a língua fundadora de prazer
que língua é essa língua?
que língua serpenteia no escuro e profundo, não dizer?
balbuceia e geme
morre em um
ascende em outro o exagero
vira de costas
ri sorrateira, mostra a língua
na ponta da língua: palavra
língua solta
morde a língua
língua roxa
enrola a língua
o eu se perdeu em mim
te ti comigo
me mim contigo
consigo: sigo
digo: superfície
disse: não segura
a tua, a minha, a nossa língua?
aquela língua se corrói
esta língua saboreia

Adriana F. Martinez

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Impulso não há. Não há força. Vão-se horas, dias, semanas. Nada muda. Vida de clichês. Pobre racionalidade. Raiva parcimoniosa. Amores líquidos. Amizades fluidas. Opulência de mesquinharias. Verdades absolutas. Fascismos presentes. Estética barata. Permeabilidade para vãs liberdades maculadas de controle. Impermeabilidade para a poesia. Beleza frágil. Rebeldia fugaz. Perde-se numa prudente imprudência moralítica, resultante de uma dialética entre tradição e tradução.

Não suscitas vibrações.
Não és brutal.
Não há vísceras.
Pele sem
mistério.
Corpo orgânico.


Celebras a paz e não tens coragem de guerreiro. O acaso é o leme que guia a vida para a morte. Vida na maré, que leva e traz, que a lua faz. De uma estrela que não brilha. Impureza higiênica que não é capaz de um abalo que rompe uma cena, de um detalhe que gera um des. Híbrido sem ser trans, move apatias e não pertences ao fogo. Frieza e o descarte de uma vida.


Sem fantasias sem fim, as alegrias são felicidades de superfícies, que se estendem e se escorrem durante um tempo crônico. Não subvertes a sintaxe. Corpo e alma em paradeiro, presos ao chão de um espaço estriado. Ignoras o instante e tudo aquilo que tem a capacidade de quebrar a plenitude e estabelecer o caos. In-divíduo, que não desejas fragmentar suas partículas de matéria pelo não-espaço.

Guerreias, mas cartesianamente. Tática de xadrez, que obedece à tríade início-meio-fim. Conflito racional, normativo, burocrático. Filosofia ideal. Ética do trivial. Medos latentes. Sexo tétrico, de um flerte não instintivo. Santos que projetam. Deuses e demônios.

Do silêncio paralitico só remetiam juízos. As imagens nunca são tão claras! Punhal e retina. Palavra-potência. Arte de afetos. Flecha e o olhar. Violência de uma esquizo-análise. Mas as cores eram rotinas. Histórias e não estórias.

Para enxergar o infinito em baixo dos pés não basta olhar de cima! Do figurado atemporal só ficaram platôs. E da inocência lúdica só restaram sombras.

Autor: João Paulo Duarte Gusmão